Primeira vice-prefeita eleita no Recife diz que vitória é chance de ‘dar poder de decisão e representação às mulheres’

Isabella de Roldão (PDT) foi eleita na chapa de João Campos. Para ela, vitória foi ‘extremamente significativa’ para ‘mulheres, meninas e adolescentes’ saberem que podem ser o que quiserem.

Por Luiza Falcão, G1 PE – 02/12/2020   

Isabella de Roldão (PDT) foi eleita vice prefeita do Recife na chapa de João Campos (PSB) — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Isabella de Roldão (PDT) foi eleita vice prefeita do Recife na chapa de João Campos (PSB) — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Isabella de Roldão, de 45 anos, é a primeira mulher a se eleger vice-prefeita no Recife. Filiada ao PDT, vai governar ao lado de João Campos (PSB), prefeito eleito da cidade no domingo (29). Em entrevista ao G1, ela disse que a vitória da chapa é “extremamente significativa e reflete para todas as mulheres, meninas e adolescentes”.

“É uma chance de tirar pautas femininas da invisibilidade, dar poder de decisão e representação às mulheres. Nem sempre é má vontade dos [homens] gestores. Às vezes, as mulheres não são pensadas nas políticas públicas, porque elas não estão ali, porque se normatizou que política é lugar de homens”, disse.

Para ela, ter uma mulher na vice prefeitura é um grande diferencial e o fato de ser feminista e lutar por uma sociedade mais igualitária é ainda mais significativo.

“Cada mulher que ocupa um espaço de liderança, seja em empresas públicas ou privadas, transforma em possibilidades reais os sonhos de todas as mulheres serem o que elas quiserem. Elas precisam saber que a gente pode ser o que quiser”, afirmou.

Ela apontou que entende que o prefeito eleito é João Campos e que as decisões, em casos de discordância, serão tomadas por ele. Mas antecipou que vai se colocar sempre que necessário. “É importante discordar. Quando todo mundo pensa igual, o mundo não vai para a frente”, declarou.

Vice-prefeita eleita do Recife, Isabella de Roldão (PDT), durante reunião de transição com o atual prefeito, na terça-feira (1º) — Foto: Andréa Rêgo Barros/Prefeitura do Recife/Divulgação

Recorte de gênero

Isabella afirmou que seu papel não vai ser figurativo na prefeitura. Para ela, sua principal missão, enquanto mulher, é colocar o recorte de gênero em debate. “Cuidar da mulher é cuidar da primeira infância. Você precisa fortalecer essas mulheres para que a primeira infância transcorra com tranquilidade. Isso vai refletir nas futuras gerações”, disse.

“Parece clichê, mas quando a gente pensa na mulher, a gente pensa no cuidado com os filhos, com a gestão da casa. Em algum momento, a gente vai interromper uma reunião para atender o telefone de um filho. A maioria dos homens não entende que esse é uma função deles”, declarou.

Para a ex-vereadora, uma das prioridades da gestão em relação às mulheres deve ser o fim da violência obstétrica e a busca pela universalização do parto humanizado nas maternidades municipais.

“Eu vou estar muito junto de João e do secretário de Saúde. A gente te precisa acabar com a violência obstétrica e garantir a humanização do nascimento. Sem isso, não vamos conseguir uma sociedade igualitária”, disse.

“É uma pauta que eu tenho um compromisso de vida. Quero que toda mulher gestante tenha direito ao parto humanizado, que ela saiba que pode fazer escolhas. A lei que garante a entrada das doulas nas maternidades municipais é minha, quando fui vereadora. Eu tive doula nos meus partos e queria que todas as mulheres tivessem direito”, explicou.

Fé e feminismo para enfrentar turbulências

Isabella afirmou que está disposta a enfrentar os movimentos de reação que possam se opor a suas colocações enquanto vice-prefeita. Ela disse, em tom de brincadeira, que é “tão feminista que se apega à Nossa Senhora, para resistir às situações conflituosas”.

“Em momentos difíceis, eu choro, sofro, me apego com Nossa Senhora, que é mãe também. Estou em oração para receber os movimentos contraditórios com tranquilidade. Virão tempos turbulentos, mas nós vamos persistir no caminho do bem”, disse.

Mulheres na política do Recife

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As eleições 2020 têm um simbolismo para todas as mulheres. Embora não ocupe a titularidade da gestão, Isabella é a primeira mulher a se eleger como vice, o que, de acordo com ela, pode “tirar pautas feministas da invisibilidade”.

A primeira vez que os recifenses puderam escolher votar em uma mulher só aconteceu em 2004. A primeira mulher a se colocar como candidata a prefeita foi Kátia Telles (PSTU), que já havia se candidatado a vice, em 2000, na chapa de Pantaleão Panta, então no mesmo partido.

Isabella foi eleita 24 anos depois de a primeira mulher se candidatar a vice no Recife. Em 1996, Maria de Lourdes, do PSTU, era a candidata a vice na chapa de Joaquim Oliveira Magalhães (PSTU).

Em 2020, três candidatas a prefeita e cinco candidatas a vice foram anunciadas entre os 11 candidatos a prefeito e 11 candidatos a vice. Marília ArraesPatrícia Domingos e Cláudia Ribeiro encabeçaram as chapas do PTPodemos e PSTU, respectivamente. Isabella de Roldão, Priscila Krause, Rosály Almeida, Kátia Teles e Roberta Rita eram as vices das chapas do PSB, DEMPSL, PSTU e PCO, respectivamente.

Foi também em 2020 que uma mulher disputou o segundo turno pela primeira vez no Recife. Marília Arraes, que concorria na chapa adversária de Isabella, ficou em segundo lugar, com 43,73%. Após a derrota, Marília afirmou que gostaria de inspirar outras mulheres.

Perfil

Vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira, e o atual prefeito Geraldo Julio em encontro com o prefeito eleito, João Campos, e a vice-prefeita eleita, Isabella de Roldão, na terça-feira (1º) — Foto: Andréa Rêgo Barros/Prefeitura do Recife/Divulgação

Vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira, e o atual prefeito Geraldo Julio em encontro com o prefeito eleito, João Campos, e a vice-prefeita eleita, Isabella de Roldão, na terça-feira (1º) — Foto: Andréa Rêgo Barros/Prefeitura do Recife/Divulgação

Isabella Menezes de Roldão Fiorenzano é professora, advogada, mãe de três filhos e estudante de nutrição. Filha de Roldão Joaquim, que foi candidato a vice prefeito na chapa encabeçada por pelo ex-governador Eduardo Campos em 1992, Isabella já foi presidente do Partido Democrático Trabalhista do Recife (PDT), entre 2015 e 2016.

Foi vereadora do Recife de 2013 a 2016. Isabella foi candidata a vice-governadora na chapa de Maurício Rands (então no PROS), em 2018. Na época, a chapa ficou em quinto lugar.

Entre fevereiro de 2019 e abril de 2020, atuou como secretária de Habitação do Recife. Chegou a ser cotada para candidata a prefeita pelo PDT, mas acabou sendo indicada pelo partido a vice na chapa de João Campos.

Fonte: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/eleicoes/2020/noticia/2020/12/02/primeira-vice-prefeita-eleita-no-recife-diz-que-vitoria-e-chance-de-dar-poder-de-decisao-e-representacao-as-mulheres.ghtml

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